“Deus não é um ser indiferente ou longínquo, pois não estamos abandonados a nós mesmos.” [João Paulo II]
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Pode-se dançar na Liturgia?
Ao escrever esse texto, faço memória de minha história, e me alegro ao perceber que o amor a Deus e à Igreja foram realidades sempre constantes na minha vida. Creio que, desde o ventre de minha mãe, fui aprendendo a amar a Deus e que, em algum momento, ainda na infância, comecei a amar também a dança. Mesmo tendo esses amores tão latentes, somente com o tempo pude perceber a possibilidade de um diálogo entre eles. Dançar na presença de Deus, dançar a presença de Deus, dançar para “tornar Deus presente”... Foi isso o que me apresentou à Comunidade Recado e, desde então, eu nunca mais fui a mesma, meus amores finalmente se juntaram e, impulsionada por eles, hoje sou leiga consagrada e professora de dança, graças a Deus!
Sei que a dança nos acompanha historicamente como povo de Deus e reconheço, como evidente demonstração do fato, o versículo que inicia esta reflexão. No entanto, é certo que hoje em dia não se dança muito em nossos cultos oficiais. Em algum momento, e por algum motivo, deixamos de “dançar na presença de Deus” como comunidade. Mas, afinal, isso ainda seria possível? Podemos retomar essa prática?
A liturgia eucarística é para os cristãos católicos o lugar, por excelência, da presença de Deus, pois é quando se celebra, em comunidade, a morte e ressurreição do Cristo que se entrega por inteiro: “corpo, sangue, alma e divindade”. Na liturgia eucarística, somos convidados a participar, também, por inteiro, desse mistério. No entanto, parece ser mais comum a prática de ignorar o corpo na ação de celebrar.
O corpo que sente, se expressa, se move e que dança parece representar uma ameaça de superficializar o rito, dispersar de seu sentido mais essencial ou até mesmo profaná-lo. Tais concepções podem ser consequência, em especial, de um “pré-conceito” a respeito do corpo e mais especificamente do corpo que dança ou, ainda, da atitude de desconsiderar a relação de unidade entre corpo, alma e espírito, prejudicando a experiência de que, “quanto mais sensível o espírito, mais apto se faz o corpo para [...] criar uma linguagem para o indizível. É a expressão total do ser.” Monrabal(2006, p.45)
Possivelmente, o fato de nos referirmos à arte da dança, pensando em único “modelo”, já limite a reflexão sobre o assunto em questão. Assim sendo, creio que a pergunta deve ser feita de modo diferente, ao invés de “pode-se dançar na liturgia?” penso que o questionamento deve ser, “qual dança nos possibilita dançar a liturgia"?. A minha insistência em dizer que a dança tem seu lugar litúrgico não se dá apenas por gosto e afinidade pessoal, mas por ser fruto de leituras, observações e experiências, que são:
· A presença da dança e das artes na liturgia do povo de Israel e nas Sagradas Escrituras;
· A relação histórico-cultural existente, para vários povos, entre a dança e a ação de celebrar;
· A identificação e o surgimento, nas paróquias e comunidades, de muitos grupos impulsionados pelo desejo de dançar como demonstração de amor a Deus, meio de evangelização e de serviço à Igreja.
É certo que cada um desses itens demanda cuidadosa pesquisa e debate, porém, nesse momento, podemos utilizá-los para chamar a atenção da necessidade de ampliarmos o olhar, as percepções e o conhecimento acerca do assunto, além de nos propormos a converter nossos corações e concepções pela força do Espírito Santo, que tudo renova e transforma.
Por fim, entendo que não cabe a nós, cristãos, negar a possibilidade de dançar a liturgia, como comumente temos feito, mas, ao contrário, entendo que precisamos buscar conhecer o assunto para, então, fazer a dança litúrgica acontecer de modo significativo, com discernimento, sensibilidade, humildade e respeito, o que certamente acontecerá a partir da formação (humana, espiritual, artística, doutrinária, bíblica etc) contínua das equipes que exercem o ministério da dança litúrgica. Se assim agirmos, além de evitarmos a introdução das danças acadêmicas ou midiáticas nos cultos religiosos, possibilitaremos que os ministérios de dança sejam disseminadores do interesse pela liturgia, pela dança e pela fé que professam e celebram. Deste modo, o povo será impelido a dançar a liturgia e assim, experimentar uma possível e fecunda forma de oração comunitária, ainda que se permitam fazê-lo apenas em dias festivos para a Igreja. Tal vivência certamente nos permitirá aprender, também, a dançarmos juntos a liturgia da vida, atentos, disponíveis e em sintonia uns com os outros, por amor a Deus e aos irmãos!
“E toda casa de Israel dançava com entusiasmo na presença de Deus.” II Sam.6,5
Por: Claudia Cardoso Barreto